COBRANÇAS
Antes conhecida como uma fase divertida e descompromissada, a infância tem se tornado uma etapa repleta de obrigações e atividades. A agenda de diversas crianças é mais cheia do que a de muitos adultos. Aula de segunda a sexta-feira, cursos de línguas, lições de casa, esportes e outros compromissos tomam a maior parte do tempo dos pequenos.
Desde muito novas, os pais e as escolas cobram as crianças para que tenham um desempenho escolar impecável e já se preparem para o futuro. Mas os adultos não percebem que tanta pressão pode prejudicar os pequenos e causar sérios problemas de aprendizado e desenvolvimento. Segundo Aloysio Costa, coordenador pedagógico do Ensino Médio do Colégio Augusto Laranja, a cobrança é importante, mas na medida certa. "Toda pressão pode ser prejudicial. Por isso, equilíbrio é a palavra da vez", avisa o educador.
"Hoje, os concursos e vestibulares permitem que uma mesma vaga seja concorrida por estudantes de todo o país. Acredito que este fato, para muitos pais e escolas, gere certo temor de que seus pupilos falhem. Portanto, os adultos passam a cobrar excessivamente para que os pequenos sejam os melhores alunos. A criança, apesar de ter grande resiliência, tem um limite para a pressão psicológica e assim pode gerar o efeito contrário. Em vez de estudar e se esforçar cada vez mais, acaba desinteressada e triste com tanta pressão", alerta Frederico Cesarino, professor e mestre em Sociologia da Educação.
Tantas cobranças causam mais problemas. "Essa pressão, além de provocar em muitas crianças manifestações físicas (como vômitos, dor de estômago e dor de cabeça) e psíquicas (ansiedade, medos, agressividade e baixa autoestima), revela um grave problema da sociedade atual: valorizar resultados e não o processo, o ter em lugar do ser. Na verdade, algumas escolas e pais acabam por exigir das crianças a nota alta ao invés de estarem preocupados com o processo de aquisição de um conhecimento que realmente crie condições de uma maior compreensão do meio, de sua realidade, de sua cultura", explica Mara Chiari, psicóloga, doutoranda em Educação e diretora do Clubinho Carambola.
OUTROS PROBLEMAS
A criança muito pressionada para ter um ótimo rendimento escolar pode apresentar ainda outros problemas. "Entre eles, ansiedade, nervosismo e estresse. Muitas vezes, a cobrança exagerada pode levar os alunos a recorrer ao apoio psicológico", afirma Aloysio. "A pressão pelos bons resultados gera, em termos de comportamento social, maior competição entre as crianças, em detrimento da cooperação e solidariedade", alerta Mara.
"Mas o problema maior é o 'efeito velocímetro', ou seja, a criança até que atinge seu potencial máximo, mas depois se desestimula e toma aversão aos estudos ou a outras atividades. Ela entra em depressão e sua velocidade volta ao zero. Outros problemas que podem ocorrer são a formação de um caráter introspectivo ou agressivo e desafiado. Quando eu era estudante do Ensino Médio, um garoto de 15 anos da minha escola, excelente aluno, mas muito pressionado em casa, cometeu suicídio", lembra Frederico.
Além disso, o excesso de cobrança pode acabar prejudicando o rendimento da criança na escola. "A cobrança pode transformar o processo de aprendizagem em algo totalmente desprazeroso e gerador de angústia. Hoje em dia é comum ouvir de crianças, que deveriam ver o ambiente escolar como um lugar sensível às suas necessidades socioafetivas e cognitivas, que ficam felizes por não poderem ir à aula por algum motivo. O que se espera é que o colégio seja capaz de motivar a curiosidade natural da criança, propiciar situações de aprendizado que envolvam o aluno em novas descobertas, permitir um maior autoconhecimento e favorecer a sociabilidade, a partir de critérios de respeito ao outro, de solidariedade e cooperação", avisa Mara.
"A cobrança exagerada pode prejudicar até as disciplinas em que o aluno tenha sucesso. Diante da pressão ele pretende mostrar que é capaz, mas muitas vezes nem sabe o que priorizar", adverte Aloysio. "É importante lembrar que toda criança possui um limite, e passando este limite ela pode ficar desinteressada pelas atividades e simplesmente parar de fazer tudo", comenta Frederico.
SAIBA COBRAR
Para garantir o bom desempenho escolar dos pequenos, os pais e as escolas precisam cobrar, mas sem pressionar. "Valorize os estudos da criança, diga que ela vai conseguir e que tem capacidade. Se houver algum insucesso, identifique o problema para encontrarem uma solução juntos. O aluno precisa perceber que tem o apoio da família e o fato de estarem juntos muda até a postura do estudante", afirma Aloysio.
"Isso só é possível quando os responsáveis pela criança sabem o que desejam para a educação dela. Se o que se espera é uma formação que dê base para lidar com a realidade e com a diversidade de situações do dia a dia, deve-se dar ao aluno o exemplo de envolvimento com o processo de aprendizado. Desenvolva a curiosidade sobre tudo o que o rodeia, leia com ele, ouça música, passeie junto, brinque, pense junto e estude junto. Mas é um estudar como mais uma oportunidade de construir um conhecimento juntos. Aí o importante não deverá ser a nota, que muitas vezes não reflete o aprendizado, mas o que realmente ficou compreendido e assimilado", recomenda Mara.
Além disso, os pais precisam entender os insucessos escolares da criança. "Muitos pais se frustram quando veem que seu filho tirou uma nota baixa ou está com dificuldade em algum conteúdo. Por isso, é importante fazer com que o filho não tenha receio de se comunicar com eles a respeito de algum fracasso escolar. Muitas crianças temem a reação do pai ou da mãe e acabam por esconder seus fracassos. Sem ter uma pessoa de confiança para compartilhar e pedir ajuda, entram em depressão ou paranoia e isto acaba por prejudicar mais ainda. A criança que obter fracasso em uma situação escolar e puder contar com a confiança e auxílio dos pais, certamente superará todos seus problemas de uma forma bastante objetiva", explica Frederico.
Outro fator importante é não sobrecarregar a criança com muitas atividades. "O excesso de atividades não é bom. O ideal é equilibrar a carga horária escolar (aulas, tempo para realizar as tarefas, lições de casa, pesquisas, trabalhos) com outras atividades e tempo livre", defende Aloysio. "Claro que esportes, línguas e artes são atividades que trazem contribuições necessárias para a formação de uma criança. Entretanto, elas devem ser introduzidas no momento em que puderem realmente representar um ganho prazeroso e não uma exigência. E os pais não devem ocupar horários que deveriam ser reservados para o tempo livre da criança", adverte Mara.
"Se seu filho está matriculado numa boa escola, faz judô, piano, inglês, espanhol e natação, e está conseguindo ser feliz, ter bom desempenho em tudo e não tem problemas de saúde, então não há problema. Mas certamente isto é difícil de conseguir. A agenda da criança deve ser feita de acordo com suas capacidades. É fundamental que ela tenha seus momentos de lazer, de descanso, e principalmente momentos com os pais e irmãos", avisa Frederico.
ESCOLA E LASER
A escola também deve cobrar um bom desempenho dos alunos sem ser opressiva e nem exigir mais do que deveria de uma criança. "O colégio não deve se preocupar apenas com o ensino e o aprendizado. O professor deve ter o papel social de verificar se algum de seus alunos não está bem, se está com algum problema dentro ou fora da escola e precisa saber pelo menos o básico sobre cada criança que está sob sua responsabilidade. A escola deve ter um diálogo aberto com os pais e explicar que o mundo é feito de vitórias e fracassos eventuais", afirma Frederico.
"O colégio comprometido com a formação de suas crianças não cobra o bom desempenho, porque constrói o conhecimento em suas atividades diárias. O desempenho escolar passa a ser o resultado natural de um trabalho de motivação e envolvimento das crianças na construção do conhecimento", defende Mara. "A escola deve mostrar aos alunos que é possível equilibrar nossa vida sem que os estudos, o lazer e o social interfiram no desempenho acadêmico", explica Aloysio.
Por isso, os momentos de lazer são importantes para a criança descansar e se divertir. "O lazer é necessário para aliviar as tensões e recarregar as energias. Com certeza isso ajudará no entendimento e na assimilação do conteúdo escolar", assegura Aloysio. "O lazer é o momento no qual a criança 'desliga o cérebro' das demais atividades. É fundamental para que o conteúdo que viu nas suas atividades possa ser fixado, e os pequenos aprendem muitas coisas nos momentos de lazer. Eles estimulam sua criatividade de forma espontânea e sem pressão, aumentam a coordenação motora, facilitam a socialização e muito mais", explica Frederico.
"Mas é importante que a criança tenha seu tempo disciplinado. A hora de estudar, que deve ter um período delimitado levando-se em conta o tempo já reservado ao período escolar, não deve se prolongar horas a fio, trazendo tensão para crianças e pais. Cada criança tem um ritmo de trabalho, mas ainda que ela seja mais lenta, não se deve entrar no horário reservado ao tempo livre, à refeição ou ao repouso. Família e escola devem manter um diálogo para que, juntas, possam oferecer as melhores condições de aprendizado sólido e ao mesmo tempo prazeroso", aconselha Mara.
Fonte: http://bbel.uol.com.br
Nenhum comentário:
Postar um comentário